A universalidade de ‘Sshhhh!’, de Jason. Por Edmar Neves

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Eu estava lendo um ensaio do Edgar Allan Poe chamado “A filosofia da composição”, onde o autor fala como se deu a composição de um dos seus poemas mais famosos, “O corvo”, mostrando que a produção de uma obra literária não é fruto de inspiração, mas sim de um grande trabalho intelectual que imprime na obra diversos elementos pensados pelo autor para causar determinados impactos no leitor.

Algo que me chamou a atenção durante a leitura do ensaio foi o esforço de Allan Poe em compor um poema universal, ou seja, um poema que conseguisse agradar ao público geral, onde o autor levou em consideração o tamanho e a forma do poema, seu tom e o tema a ser abordado, antes mesmo de escrever o primeiro verso.

E por ter esses cuidados em relação à forma e ao conteúdo que fazem com que a HQ Sshhhh! (Editora Mino, 2017), do quadrinista norueguês Jason, agrade a tantas pessoas e, por que não, possa também ser considerada uma obra universal. Em resumo, Sshhhh! é uma compilação de histórias curtas, que acompanham a rotina de um pássaro antropomorfo em uma cidade onde vivem outros seres que também são uma mistura de humanos com animais.

Por mais inusitada que pareça essa opção por seres antromorfizados como personagens, é obvio que ela não foi feita ao acaso, já que, segundo uma entrevista dada pelo autor, sua primeira obra era bastante realísticas e, por não ter ficado satisfeito com o resultado, ele buscou outros estilos para compor suas histórias, que refletissem o que elas realmente eram: fábulas. Mas não pense que por serem fábulas, as histórias que compõem Sshhhh! são infantis.

Sobre o que falam essas fábulas? Bem, pode-se dizer que elas tratam das angustias centrais da vida contemporânea como a solidão, a melancolia, a depressão, a nossa tentativa de sonhar e fantasiar em uma sociedade cada vez mais fria, apática, racionalista e mecanizada, o apagamento das subjetividades frente à vida moderna extremamente sufocante e fragmentaria, a inabilidade de expressar e administrar os relacionamentos afetivos, chegando até a tratar da efemeridade da vida e do suicido, tudo isso com um pouco de humor para tirar um pouco do peso do legado de nossa miséria.

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Se os temas abordados pela HQ conseguem tocar a todos, as formas narrativas não ficam para trás. Uma das escolhas que o autor fez para alcançar um grande número de pessoas foi contar histórias curtas, com o mínimo de balões de fala possível, ou, no caso de Sshhhh!, sem diálogo algum. Outra escolha interessante é a do layout das páginas, que utilizam seis quadros (grids) por página, o que ajuda o leitor a entender o que está sendo narrado apenas batendo o olho na página.

Sobre a arte de Jason, os desenhos de Sshhhh! são em preto e branco, onde há o predomínio de um minimalismo, onde só são colocados os elementos essenciais para compor a narrativa. É notável, também, uma forte influência de um estilo de quadrinhos franco-belga chamado de “linha clara”, cuja obra mais conhecida é a HQ “As Aventuras de Tintim” (Companhia das Letras), do belga Hergé, onde há um predomínio de traços fortes nos desenhos, falta de sombreamento e o uso de cores fortes e vibrantes.

O autor ainda lança mão de uma porção de técnicas narrativas para causar as mais diversas sensações no leitor, como contar uma história dentro de outra história, utilizando os espaços em branco dos quadros como uma ferramenta para delimitar o momento em que ele está utilizando essa técnica, as elipses, ou seja, o ocultamento de algumas informações e elementos narrativos, ou ainda, a utilização de elementos nonsense e fantásticos, que abrem margem para diversas interpretações da história, sem que sua coerência seja perdida.

Ao utilizar elementos narrativos rebuscados de uma forma tão leve e acessível, que um olhar destreinado pode não notá-los, mas nem por isso terá sua experiência com a obra prejudicada, Jason consegue potencializar cada elemento empregado em Sshhhh!, entregando histórias de fácil leitura e que nos fazem refletir sobre temas bastante presentes no nosso dia-a-dia.

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edmar neves

 

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