‘Moça quase-viva enrodilhada numa amoreira quase-morta’, de Evandro Affonso Ferreira. Por Jorge Antônio Ribeiro

amoreira_site_capa_03O poeta, a musa e as palavras. É nas entranhas deste triângulo que Evandro Affonso Ferreira compôs sua narrativa poética com um cuidado que se assemelha ao esmero do escultor ou ao capricho do músico ao realizarem suas obras; este livro remete às imagens que um escultor encontra na pedra e às músicas que um compositor desenha na partitura. Trata-se de uma obra esculpida com poesia e musicalizada em imagens descobertas com um rigor que assombra ao ritmo de literatura poética. Um livro que faz pensar em poemas, em canções, em sonetos, em sonatas, em sinfonias.

O poeta fala com sua musa e revela em metáforas precisas a capacidade que ela tem de inspirar a criação artística, apesar de caracterizada como niilista por ele.

Já nas primeiras linhas, o poeta, com encantamento, fala do corpo da musa, do suor, dos poros, dos pelos e refere-se às três vogais e às três consoantes que formam a palavra língua “que se junta à palavra-sexo que se junta à palavra-corpo que, juntas, se transformam numa só palavra: Amor”.

O poeta, escultor, músico, metalinguístico, situa o leitor nas camadas, ora rasas, ora profundas de suas águas por vezes mansas, por vezes revoltas. E para concluir o primeiro trecho com poesia e precisão, ele utiliza seus recursos estilísticos, que tantas vezes são explorados nesta narrativa, e com elegância e sofisticação afirma: “Ah, minha amada Musa, vou morrer logo-você precisa apressar seu amor por mim”.

Há dois tempos no livro: o agora e o para sempre.   O poeta e sua musa niilista estão situados num universo em que não há um tempo que se possa medir, são circunstâncias metafóricas em que o nunca e o sempre oferecem-se a à leitura para que ela transmita pulsações e andamentos próprios da criação poética. Na fala do poeta tem-se então o corpo, os descompassos da esperança, a melancolia “e toda sua tribo angustiosa”, “o facho de luz das possibilidades”, “a trilha sonora da melancolia”, passando também pelo porão do Desconsolo e pela “caligrafia garranchosa do Desengano”.

Nas linhas e nas entrelinhas, a palavra, então, assume seu papel de personagem pois avoluma-se pouco a pouco graças à sagacidade e à perspicácia com que o texto é desenvolvido, com achados estilísticos que buscam a beleza e o deleite estético. O poeta fala, mas passa a impressão de que a palavra é que está falando de si mesma: “Sim:/ vivia tempo todo transitando/pelas vielas da vida/à semelhança de palavras que, exasperadas,/andam a trouxe-

-mouxe/procurando,/inútil/o aconchego das frases”.

Evandro, o escritor-poeta, o poeta-escritor, com sensibilidade poética, explora a sua emoção e abala as fronteiras entre os gêneros, apresentando o poeta, a musa e a palavra numa relação mágica com o mundo.

Na segunda parte deste livro, o poeta se cala e a musa apresenta seu discurso como se respondesse aos anseios apresentados na primeira parte. Ela retoma tudo o que foi tratado anteriormente: “Oh, meu poeta, quero-preciso me enrodilhar outra vez nos seus versos”, e desenvolve seu relato, também apoiada na metalinguagem, apresentando expressões como “sintaxe invisível”, “dilacerante-desapartada gramática”, “sabotagens vocabulares” e muitas outras mais sempre apoiada em imagens de muita sensibilidade, numa relação mágica com o mundo. Também refere-se às “emboscadas da solidão poética”, ao inesperado, ao improvável, ao indiferentismo, ao abandono, às probabilidades, ao desdém, ao imponderável, sempre convidando o poeta a sair de seu canto que impede “a chegada prematura das palavras”.

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Evandro Affonso Ferreira durante o evento de lançamento (Foto: Juliana Lubini)

O poeta, a musa e a palavra “enrodilhados” desde o título deste livro e em todos os outros momentos transmitem acordes novos e dissonantes que harmonizam pensamentos e dissecam sentimentos com originalidade e beleza.

Octavio Paz afirmou um dia: “Algumas palavras se atraem, outras se repelem, e todas se correspondem”. Evandro Affonso Ferreira construiu, esculpiu, musicou este livro desenhando os vocábulos, suas correspondências e explorando as palavras com a intimidade que com elas poucos conseguem ter.

Moça quase-viva enrodilhada numa amoreira quase-morta

Autor: Evandro Affonso Ferreira

ISBN: 978-85-69020-42-4

Edição: Primeira

Páginas: 120

Formato: 15 x 17 cm

Preço: 40,00

★★★

Jorge Antônio Ribeiro, paulista de Botucatu, sempre gostou de escrever poemas e de contar histórias. Em 2011 publicou o livro de contos Esses dias pedem silêncio, pela Editora Edith e já participou de diversas antologias. Escreve para gozar, no melhor sentido que este verbo possa ter.

 

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