Entrevista com Wilson Alves-Bezerra sobre o novo livro ‘Malangue Malanga – 30 poemas para ler no exílio’

Malangue Malanga traz vários poemas que revisitam aquele território fronteiro de fricções e faíscas, com outras paisagens, outras línguas, mas sempre com a marginalidade assombrada (Wilson Alves-Bezerra)

IMG_6616A.JPG © Mari Ignatios

Wilson Alves-Bezerra

Por Edmar Neves

O poeta Wilson Alves-Bezerra retorna com sua prosa poética no novo livro Malangue Malanga – 30 poemas para ler no exílio (Multinacional Cartonera, 2019). Com projeto editorial de Fernando Villarraga, da Vento Norte Cartonera, de Santa Maria, a obra foi escrita predominantemente em português, espanhol e inglês, tem um acabamento artesanal e lança por um coletivo de 15 editoras cartoneras de 9 países.

Wilson é escritor, tradutor, crítico literário e professor de literatura na UFSCar. Autor de Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades (EDUFSCar/ Oitava Rima, 2013), Vertigens (Iluminuras, 2015) e O Pau do Brasil (Editora Urutau, 2016 a 2018), como ensaísta, escreveu Reverberações da Fronteira em Horácio Quiroga (Humanitas/ FAPESP, 2012) e Da Clínica do Desejo a Sua Escrita (Mercado de Letras/ FAPESP, 2012. O autor também traduziu Contos da Selva, Cartas de um Caçador e Contos de Amor de Loucura e de Morte, de Horacio Quiroga, Os Outros e Pele e Osso de Luis Gusmán. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2010 na categoria Melhor Tradução Literária Espanhol-Português com Pele e Osso e vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, na categoria Escolha do Leitor, com Vertigens. Como jornalista, colabora nos jornais O Estado de São Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los Inútiles – de siempre (Argentina).

Batemos um papo com o autor sobre a função da arte, processos criativos e o desafio de escrever um livro em um modelo totalmente fora do padrão. Confira:

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Wilson Alves-Bezerra

PERGUNTA – Comecemos pelo começo: o título do livro é o mesmo de um poema de Vertigens (Iluminuras, 2015). Vendo sua obra como um todo inacabado, o que há de continuidade e o que há de ruptura nesse novo livro?

WILSON ALVES-BEZERRA – Vamos deixar a ruptura, a continuidade e o todo inacabado para os professores de literatura. Queria que a gente conversasse de outra perspectiva, menos grandiloquente, mais de dia de semana. O poema “Malangue Malanga” foi uma descoberta para mim quando o escrevi: misturar as línguas portuguesa e francesa, ao sabor dos significantes e ver o que elas produziam de faísca me interessou muito. Então o Malangue Malanga traz vários poemas que revisitam aquele território fronteiro de fricções e faíscas, com outras paisagens, outras línguas, mas sempre com a marginalidade assombrada.

P – Ao ver o subtítulo do livro, “30 poemas para se ler no exílio”, a primeira referência que me veio à mente foi o poema “Canção do exílio”, do Gonçalves Dias. Mas ao contrário do poema romântico, aqui não há uma exaltação dos valores da pátria. Do que se trata Malangue Malanga?

WAB – Não trata, não é um tratado: destrata, inverte e mescla, sem que isso seja distópico, isso é o que somos, a mescla, o transbordamento e a falta. A literatura fala pela forma. Malangue Malanga é uma forma falante!

P – Algo que chamou a minha atenção foi uso de três idiomas para escrever os poemas, predominantemente o português, inglês e espanhol. Como essa escolha estética influenciou na construção lírica da prosa poética?

WAB – Rapaz, essa entrevista está parecendo prova de literatura! Eu vou te fazer uma proposta: como você responde esta pergunta?

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P – Com um sorriso nervoso. Bom eu achei legal essa escolha, pois aumenta as possibilidades líricas do seu texto, além de desafiar o leitor a ler 2 ou até 3 idiomas numa mesma linha, fazendo uma bagunça danada no cérebro. Mas ainda sobre a mistura de vários idiomas e pensando na fragmentação da identidade dos sujeitos contemporâneos, como você enxerga a figura do exilado político/imigrante em tempos de ascensão do fascismo e da extrema-direita no mundo?

WAB – Eu enxergo de perto desde criança, enxergo hoje quando olho no espelho. Meus pais são retirantes nordestinos, da zona da mata, nas Alagoas. Quando eu cresci havia ditadura. Agora há estado de exceção e arbítrio. Começar a vida e chegar a 2019 assim inverte um pouco a perspectiva da pessoa: o parênteses foi a democracia, não o estado de exceção. O português nunca foi uno, o dos meus pais nunca foi o de São Paulo, as cores de todas as peles nunca foi homogênea. Não há motivo – penso – para na poesia assumir a voz dos gonçalves e oswalds, é preciso lê-los no gueto e torcê-los, até o oswald perder o último centavo, até o Esplanada virar novamente ruína, para então ecoarem outras vozes. É o que tenho tentado fazer.

P – Ao contrário do que ocorre em O Pau do Brasil (Urutau, de 2016 a 2018), onde as questões políticas tomam a frente dos poemas, me parece que em Malangue Malanga a discussão política paira predominantemente como uma sombra agourenta que se materializa em alguns versos/frases (algo que me gerou um pouco incômodo e até mesmo ansiedade). Isso foi intencional?

WAB – O que pode fazer um leitor incomodado? Um leitor ansioso? Um leitor sem paz, o que há de fazer? Qual o modelo de leitor ideal: o leitor insône ou o que adormece babando sobre as páginas conciliadoras de um livro? Em 2019, a literatura que não produzir ansiedade deve ser guardada para tempos de bonança. Mas queria ouvir você, meu caro Edmar, sobre a resposta da sua pergunta.

P – A meu ver (e de vários especialistas em arte) há um movimento de provocação que a arte faz com o público, onde o artista busca causar as mais diversas sensações no espectador, convidando-o a não ser mais passivo, mas sim a participar ativamente para conseguir entender aquilo que ele tem nas mãos, ou seja, não há a busca pelo simples deleite que a Indústria Cultural necessita para sobreviver, não há mais pão e circo: ao ler um poema, uma HQ, um romance, podemos sentir raiva, nojo, repulsa, já que somos tirados de nossa zona de conforto, afinal a arte deixou de ser bela para se adequar a realidade. Tem uma frase sua que me marcou: “a poesia serve para falir as editoras”. Fale um pouco sobre o processo editorial de Malangue Malanga, como foi a experiência de publicar um livro num processo artesanal, ainda mais em um momento de crise não só política e econômica, mas também das editoras.

WAB – Tudo faz parte de um plano:

  1. Escreva livros de poemas na adolescência nos anos 90 e se frustre porque vai vender menos que o Paulo Coelho.
  2. Escreva outro livro de poemas quase vinte anos e se assombre com o fato de ele ser premiado.
  3. Escreva um livro de poemas políticos sobre seu país e reatualize a edição até ser chamado de poeta de esgoto.
  4. Escreva um livro de poemas com fragmentos de português, espanhol, inglês e francês que possa ser incompreendido por leitores da maior parte do mundo ocidental.
  5. Escreva livros, escreva.
  6. Seja editado por uma cartonera de uma pequena cidade do sul, que tem contatos diversos, de editoras que também fazem livros artesanais em papelão, em diferentes países (Brasil, Bolívia, Chile, Guatemala, México, Peru, Espanha, Moçambique, França)
  7. Desconfie, sempre.
  8. Fale sobre os livros em diferentes estilos, para diferentes veículos, alternando sisudez acadêmica, preguiça macunaímica e espírito de porco no rolete.
  9. Reflita sobre este vocábulo: molotov.
  10. Escreva poemas.

edmar neves

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