Renata Py: Retrato Antigo

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Seus passos chegavam como notas de bandolim. Pelas pontas, nunca apoiados inteiros no chão, como se você não quisesse pertencer ao solo. Ainda assim, eles deixavam pontos definindo sua trajetória para quem quisesse seguir. Muitos iam atrás, alimentados por algo seu. Eu não tinha essa percepção de privilégio quando você ainda corria para os meus braços.

Eu costumava fazer algum tipo de reverência informal antes de puxá-la para a minha roda. Um gesto bobo que você retribuía com seus olhos descritos por Assis. E quando éramos somente nós, abria detidamente todos os botões das suas vestes, apenas para sentir seu fôlego afoito. Por anos conseguimos nos esconder das sombras da velhice. Um dia, inevitavelmente, você enxergou nosso futuro por uma vidraça qualquer. Dali por diante seu farto sorriso nos abandonou para nunca mais. As notas das suas passadas romperam com a métrica do arranjo em questão de segundos.

Voltaria para os tempos ingênuos, dos seus seios rijos escondidos atrás do algodão macio das suas blusas. Inconcebível, eu sei. Vi verdade demais na sua expressão ao enxergar além. A lembrança da leveza dos seus gestos escondia os ombros caídos pelo peso do nosso cotidiano sem sutilezas. Com recortes de figuras de revista eu tentava loucamente montar nossas faces joviais, mesmo que em desproporção. Eram olhos de outras e não os descritos por gênios da literatura.

Tudo passou lepidamente, como um ato em palcos bambos. E nossas encenações já eram dignas de grandes aplausos, tamanha experiência que ganhamos em atuar. Na insistência de permanecer, segui no mesmo vagão por um resto de vida. Deixei poetas pela vista de fora. Cada um deles ainda procura a meu mando, um nome para nossa obra.

Não posso te culpar, numa tentativa sem sucesso, você chegou a colocar a caneta em minhas mãos. Eu fui incapaz de criar palavras bonitas nas folhas lisas, fiz delas objetos sem uso. Deveria ter escrito, mesmo que fosse mentira, um rabisco qualquer. Afagos esferográficos, que hoje soariam precisos.

Mesmo na sua velhice, eu insistia nas expressões antigas. Para acreditar que não tínhamos perdido nada. Quantas vezes a obsessão que eu nutria transformou a sua tímida risada em gemidos no colo alheio. Não havia monotonia na confusão dos meus pensamentos. Eu te punia. Quando você se foi, eu gritei seu nome por dentro de um universo surdo. Não entendiam meus gestos e alegaram loucura.

Nunca consegui me refazer. Deveria ter colocado as cortinas mais caras naquela vidraça empoeirada. E jamais atribuído o seu olhar a qualquer personagem que fosse, mesmo que bem escrito. Desculpe pela falta de percepção no descaso no nosso ser. Minha coluna se curvou com os anos fazendo com que eu não enxergasse na perspectiva correta. Quebrarei todas as vidraças para que possamos alcançar nosso bonito passado, e assim guardarmos corretamente no lugar das coisas importantes.

Renata Py é publicitária, foi editora-chefe da PUNKnet e locutora na Antena Zero. Trabalhou com jornalismo cultural em veículos como Showlivre e Kultme. Hoje dedica-se apenas à escrita literária. 

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