Maria Ottilia Rodrigues lança o livro ‘Savanália’

 

Uma jornada por entre os pesos e levezas do universo de ser e de caçar compreensão. Através de uma poesia tão instantânea quanto o pensamento, imune a qualquer linearidade e deglutição interpretativa, Maria Ottilia escreve – em uma poética digressiva – um consciente simbolismo para o caos que a rodeia. Palavras que justapostas, ao primeiro olhar, incitam estranheza permeiam este livro coroadas com significados inéditos, metáforas substanciais e um bombardeio emocional.

A leitura de _”Savanália”_ é um passaporte para o íntimo da poetisa, o local de produção artística cristalina; a alma autêntica de uma artista. Versos por vezes perdidos, presos a _loopings_ existenciais, conferem à apreciação da obra a oportunidade única de ler um poema sob a impressão de estar de fato diante da datilografia de um devaneio.

Leia três poemas que estão no livro:

Maré incandescente

A doçura destes olhos negros
anulam teus bruscos gestos
equiparam-se ao amor sincero
no qual a brasa incendiou

Mas afirmo
não ardeu
não queimou
gozou da dor?
não
metamorfou em instantes
o elemento se modificou

Prendi o ar e mergulhei
o incêndio acabou
Tu fugiste?
observo-te enquanto corre
e foge
foge…
Foge longe daqui.
Peito meu ansiou de novo
não quis o novo
bem que tentar
tentei
o gélido não agradou
alma grita
chama
tem ânsia da tempestade
tem medo de trovão

Cuidado!
inundação
um par de olhos trouxe o dilúvio
40 dias e 40 noites
nestas águas letais o que mais há
além de rezas para Iemanjá
é navegante à deriva

Nunca ouvi falar
de um só marinheiro adentrar
nem mesmo os companheiros de Sebatistão Cobato
os pequenos homens das grandes navegações
pois quem entra necessita saber manejar
além do barco
o tempo da bússola
e a bússola da vida

Barco eu que sempre fui
de burguês
carreguei tanto
capital exagero nulo
nulo da alma daqueles que o tivesse
exagero de bancos vazios para sentar
exagero de bancos cheios no exterior
no fim
afundei-me no lago de notas em meio do ocidente no hemisfério norte
desistindo
virei nadador de sal

No entanto
pedido unicamente por ti o meu retorno
mergulhar em mares açucarados
hei
Sinto desta vez a pele queimar
água?
desta vez evaporou-se
dilúvio?
já dissipou-se
açúcar?
melado tornou-se

Restou panela de ferro tostada
brasa que antes cessada
incendeia a morada
que salgada estava
e salgada continuou
No meio do oceano seco
burgueses se afogam no lago de papéis
o barco
afundado
encalhou no passado
os navegantes jamais chegarão às Américas.

Lagos transbordante 

Amo-te como nada
Tudo há, para ter nada
Há pretéritos mais que perfeitos compostos de raizes fragmentadas
Há futuros que indicam o incerto
Há presentes que se bastam por existir
Há inúmeras condições verbais, dispensáveis
Há simulacros de horas perdidas
São eu, marcados em tic-tac
Há simulacros de momentos existentes no tudo
São eles, relógios ambulantes
O vazio de tudo, é a nossa hora
Acerto-o em nada e vivo

Amo-te como nada
Tudo é complexidade por si só
Pegue a gramática, tudo de algo lá está
Tudo de algo é nada para alguém
Pronomes indefinidos são tudo de algo
Mas na gramática é ínfimo, é quase nada
Uma página é imensidão, apenas no nada
Uma página é migalha, no tudo
Revolução francesa em mim

Amo-te como nada
Amo-te e beijo, como nada
Amo-te e inspiro, como nada
Amo-te e olho, como nada
Amo-te e Rio, sou maré agora
Amo-te e São Paulo, concreto é meu amor
Amo-te e como nado, canso de amar
Amo-te por nada, nadinha, juro
Amo-te por tudo, que se resume em nada
Pois tudo é tão imenso
E eu caibo tão pequenina no meu amor.

Gente vazia 

Tem gente imoral
sem moral
imortal
Do caixão
pedra joga
Do chão
raiz arranca

Tem gente ruim
Do escuro
espelho cria
Do oco
casa goza
Faz do irmão Jesus

Tem gente que com pé de letra nasce
Cruz da certidão
faz ambição
Seios em pares
seios sem crucifixo
Martelo
martela
O prego
imaterial

Tem gente hospício colorido
Veneno
se faz de cor
Veneno
se faz de cor
Mata
prazer natural
Cobra
conduta própria
no semelhante

Tem gente que liberto foi
solto foi
pássaro foi
passado voou
Infeliz puerilidade tardia
voo estéril
do outro vivia
sem alimento
Inexiste
não canta o amanhecer

Tem gente que rodou
dançou
bailou
querendo
queria
sendo
era
mas agora
anda
sem medo
assalto
já feito
falta tempo
Roga vento
Sopra desvaneios
Sobra decepção

Tem gente nascido no planalto
Poeta plano no alto
presas amarras
cordas atadas
Espera
em cima do banco
o tardio ônibus
Olha placa
esperançoso encontro
Atraso do outro
empurrar de ambos
fim de alguém

Tem gente que morre
de súbito
no prelúdio
colide na construção
tropeça no broto
ódio eterno
A Deus.

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